por Serg Smigg
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Fiéis das mais diversas vertentes religiosas, e diversas é o termo mais aproximado do eufemismo – e da ironia também – para destacar a quantidade absurda de novas denominações que surgem dia a dia, representam uma grande força nesta que é chamada a civilização da tecnologia. Uma força aqui vista sob duas óticas distintas, mas interligadas. Sabe-se que lamentavelmente o instinto individualista do animal homem ainda é encontrado na herança genética, vinda dos tempos em que o uso da força bruta era parâmetro para a questão da sobrevivência.
Por séculos após o cérebro mentecapto de milênios atrás ter percebido necessidade de viver em clãs, a natureza, com suas intempéries e situações de risco a todo instante, forjou a concepção da autodefesa fundamentada nas energias musculares do corpo humano. A convivência gerou ainda a noção de sentimentos associados ao bem-estar emocional: aconchego, proteção, familiaridade etc. E espírito de liderança. Assim, quanto mais forte o líder, maior o alcance da percepção social de seus atributos.
O cérebro aprende com exemplos encontrados no mundo exterior a si. Os muitos séculos nos primórdios da humanidade vividos sob impressão de que líder é superior criaram também a noção de individualismo, pois todos passaram a buscar ser líder. Posteriormente, de forma lenta e silenciosa, esse instinto foi se tatuando na personalidade do homem, geração após geração. Hoje, o homem ainda é tão dependente de líderes, de heróis, de exemplos que nem sequer se dá ao trabalho de usufruir de seu senso crítico para avaliar comportamentos. Basta que ouça eu sei ou eu faço para se entregar idealmente como uma criança despreparada.
Todo comportamento social tem prazo de validade. Isso é notório. Após milênios de dependência por parte dos clãs em relação aos que mais se destacavam, o cérebro voltou seus fundamentos percepcionais a deuses. Passou-se então da admiração físico-postural a oferendas. Nas sociedades anteriores à Era Cristã, ofertavam-se animais a deuses mitológicos. (Ainda hoje esse comportamento é observado em sociedades extremamente atrasadas.) Com o fortalecimento dos conceitos vanguardistas do homem Cristo – mas jamais assimilados a contento -, exauriu-se a ideia de oferendas, argutamente substituída pela ideia de dízimo.
E então chega-se à civilização atual.
Oferta-se financeiramente hoje muito mais que conceitualmente antes. No lugar do bem-estar emocional diante do forte homem das cavernas e da oferenda de sangue animal ou humano nos altares gregos, romanos, mesopotâmicos etc., hoje os cofres religiosos com senhas numéricas e aplicativos de tecnologia da informação são o instrumento de elo entre as necessidades psicológicas humanas e a ilusão de vê-las supridas. Faz-se isso hoje com tal leviandade que se veem exaltados seres tão normais quanto qualquer um dos mais normais do mortais, mas vendidos a peso de ouro. O ouro da dignidade social. (Desta forma, chora-se por jacksons, endeusam-se madonas, extasia-se por winehouses com tanta futilidade quanto fúteis são suas pretensas obras.)
Poucos e rápidos cálculos poderiam demonstrar claramente as duas arestas da força da fé, mas calcular infere raciocinar e parece que ambos os verbos representam tarefa por demais distante do universo dos que se entregam cegamente ao hábito da orgia religiosa.
A primeira aresta é conceitual. Considerando as muitas décadas de ação das vertentes protestantes – e tal ação por si vem num crescendo de progressão geométrica – (sem ainda se pensar no Catolicismo, que reinou absoluto por séculos seguidos), é surpreendente observar a safardes ética da sociedade mundial. O fluxo de proliferação das igrejas pentecostais no mundo todo – veja-se aqui um aparte para o lado cômico dessa proliferação: adoradores de Maradona, Bola de Neve, Associação Evangélica Fiel Até Debaixo D’água, Florzinha de Deus etc. (clique e veja mais) -, inclusive e especialmente na classe política, não permitiria haver tanta corrupção, tanta desconsideração para com o próximo, tanto desdém em relação à fome mundial, tanto distanciamento entre líderes e liderados. Ou seja, a quantidade de igreja e de seus fiéis já deveria ter feito com que a palavra de deus surtisse o efeito proclamado, pelo menos na maioria dos homens. Desde Lutero, a quantidade de igrejas inventadas no mundo necessariamente haveria de ser superior à força das imperfeições dos homens. Haveria de ser se houvesse o mínimo de idealismo na classe liderante.
A segunda aresta é financeira. Pensando-se em termos mundiais e considerando-se o fluxo financeiro na igreja católica em todos os séculos, considerando os bens materiais à disposição dessa instituição; considerando ainda o movimento de dinheiro em todos os templos neopentecostais; somando-se ainda tudo isso a aportes financeiros governamentais destinados a ONGs, instituições e programas sociais, somente um completo alienado não se perguntaria: ainda existe fome no mundo? Ainda existem corrupção, desmandos, melindres e falta de ética?
Esse estado da consciência atual da comunidade religiosa mundial talvez seja o que mais íntima e seriamente lembre um dos conceitos mais fortes do homem mais exaltado pelos líderes de hoje em suas palestras teatralizadas, sessões pré-concebidas e cultos esclarecedores. Disse aquele homem há dois mil anos sois cegos guiando cegos ao se referir ao relacionamento entre os autoinvestidos da ordem divina e seus fiéis. Coincidente, previsível e adequadamente, esta passagem bíblica é envolta por contumaz esquecimento nos encontros e discussões.
Dirão os embevecidos fiéis e espertos líderes: não se consegue melhorar o nível ético da humanidade porque o diabo está entre os homens. E alguns deles certamente irão mais longe: este próprio texto é inspirado pelo inimigo de deus, pois está execrando o ato de fé representado pela oferta do dízimo, quando todos sabemos que o dízimo foi instituído por Deus. E a estes os enceguecidos louvarão com hosanas, esquecendo-se de que, quando deus fez o mundo, não fez o dinheiro; que, quando a ideia de dízimo foi incorporada ao comportamento social humano, o inconsciente coletivo previa que fraternalmente se dispusesse de certa parcela do tempo de vida a deus e à comunidade, com atos de companheirismo, cordialidade e amizade.
Os muitos anúncios descarados de compra de helicópteros, fazendas, empresas por parte de líderes religiosos, de investimentos faraônicos em minisséries (Esther, Sansão e Dalila etc.) televisivas ou cinema e em companhias marítimas, acordos milionários com famílias vítimas de pedofilia etc. mostram os caminhos fáceis percorridos pelos dízimos; a hediondez humana prevista e vista no comportamento de líderes religiosos, a pequenez de postura no relacionamento humano mundial que deveria ser corrigida por esporádicas ações sociais e religiosas, a desfaçatez de princípios sentida na manipulação da fome no mundo etc. mostram os caminhos tortuosos percorridos pelos ideais.
Fortaleceu-se então o dízimo financeiro e fez-se recrudescer a força do ideal dizimista da fraternidade.
Há algo de podre no reino religioso.
Serg Smigg, é colunista e revisor do Blog da Comunicação.
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