POR Guilherme Freitas 3 ANOS ATRÁS
COMPARTILHE

Faço essa pergunta a todos que criticaram os atletas brasileiros que disputaram os Jogos Olímpicos de Pequim e esqueceram dos nossos eternos cartolas

Atletas brasileiros posam junto do presidente Lula antes de embarcarem para Pequim

Crédito: Satiro Sodré/CBDA

 

por Guilherme Freitas

guilherme@blogdacomunicacao.com.br

 

Mais uma edição dos Jogos Olímpicos chegou ao fim. Com a equipe mais numerosa de sua historia (277 atletas) e com o maior investimento financeiro de todos os tempos (cerca de R$ 160 milhões gastos com esportes olímpicos), o Brasil deixou a China com um sentimento de frustração. Afinal foram apenas 15 medalhas conquistadas: três de ouro, quatro de prata e oito de bronze. Esse número iguala o recorde de pódio, estabelecido em Atlanta-1996, mas é abaixo do que o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) esperava. Mas a culpa é mesmo toda dos atletas?

 

Não acho justo que toda a culpa pela campanha mediana do Brasil em Pequim seja colocada sob os ombros dos atletas. Afinal de contas porque taxar de pífio o desempenho verde e amarelo? O Brasil ficou onde deveria estar, na 23ª colocação, na parte mediana do quadro de medalhas. Desculpem-me, mas seria uma ingenuidade achar que repetiríamos o desempenho dos Jogos Pan-Americanos do Rio, uma competição de segundo ou terceiro escalão. O Brasil não é potência olímpica nem aqui, nem na China.

 

Mesmo com todo o investimento gasto no esporte olímpico os atletas não podem ser totalmente responsabilizados pelo desempenho. Tudo bem que esta foi a primeira Olimpíada após a aprovação da Lei de Incentivo Fiscal ao Esporte, que despejou dinheiro. Alguns atletas realmente sentiram a pressão. Outros não tinham chances nenhuma contra atletas de ponta. Outros sofreram com o azar. Porém, outros mostraram que estão entre os melhores do mundo e outros surpreenderam. Entretanto, quero lembrar que muitos atletas não têm condições mínimas de treinamento, como a medalhista de bronze do taekwondo, Natália Falavigna, que treina junto com os homens. Há atletas que não têm condições financeiras de competir, como o judoca Eduardo Santos, que não tinha R$ 1.500,00 para pagar a o teste de faixa preta. Quem tem condição financeira e patrocinadores, como o nadador César Cielo, vai treinar no exterior.

 

Continuo acreditando que a maior parcela de culpa é de responsabilidade dos nossos dirigentes esportivos, os nossos famosos cartolas, que adoram o sabor do poder. São eles os responsáveis pelo desenvolvimento do esporte olímpico. São eles que devem investir dinheiro nas modalidades. São eles que devem massificar os esportes nas escolas. Mas eles muitas vezes apenas falam e falam. Não agem. A delegação brasileira foi uma das mais numerosas na China. Quase 300 atletas e outros quase 200 “membros da delegação olímpica”. Uma vergonha para um país que fala de boca cheia que tem condições de sediar uma Olimpíada.

 

Espero que os Jogos Olímpicos de Pequim tenham servido de lição para nossos cartolas. Chega de cantar que somos uma potência olímpica. Agora é hora de por os pés no chão e agir. Que eles façam o possível para que nossos atletas consigam mais resultados expressivos. E que os mesmos atletas façam sua parte também, já que tendo a melhor estrutura disponível nas mãos não há porque ter desculpa para fracos desempenhos. Faltam quatro anos para os Jogos de Londres e até lá podemos evoluir e conseguir mais medalhas de ouro.

 

O Rio de Janeiro só não pode ser eleita sede dos Jogos Olímpicos em 2016. Uma vitória para esses atuais dirigentes vai atrapalhar em muito a tentativa do Brasil de ser um país competitivo em Jogos Olímpicos. E não apenas um mero coadjuvante.

TAGS: , , , , , ,

4
COMENTÁRIOS
MAIS SOBRE Guilherme Freitas
Nasceu em São Paulo, no dia 5 de fevereiro de 1986, é jornalista formado pela UniFIAMFAAM, pós-graduado em Globalização e Cultura pela FESPSP e vegetariano desde os quatro anos. Trabalhou para as Nações Unidas em Nova York, é correspondente de imprensa da FINA (Federação Internacional de Natação) no Brasil e jornalista sênior na revista Swim Channel.
CONFIRA TODOS OS POSTS DO AUTOR
  • http://www.curiosando.com.br Rodrigo Piva

    Não é nada justo cobrar apenas deles. Justo é cobrar onde está o investimento? O ministro dos esportes disse em entrevista a revista ISTO É que não falta dinheiro para o Brasil organizar as Olimpíadas. Ora, se não falta dinheiro, cadê os investimentos? Onde estão as quadras nas escolas (só 11% às tem)? Onde está a obrigatoriedade da aula de educação física (hoje em muitas escolas públicas ela é facultativa) — meu pai é professor de educação física então falo com conhecimento de causa?.

    Basta lembrar do primeiro a ganhar medalha de ouro nos jogos Pan Americanos que custaram 4bi!!! Ele disse que recebia QUANDO recebia, cerca de 600,00 por mês e as vezes passava por baixo da catraca pois nao tinha condição de pagar a passagem até o local de treino.

    O judoca que se desculpou com os pais chorando por não ter conseguido a medalha. Lembra? Não tinha 1500,00 para pagar o teste para obter a faixa preta, por isso ficou com a marrom por mais de 5 anos! Só ganhou a preta ao ir para a China.

    Esses são os cartolas que comandam o esporte. Esses são os cartolas que querem as Olimpíadas no Rio para encher o boldo de dinheiro e encher de esperanças os brasileiros que mal sabem o quão podre é a “política do esporte”.

    Falai demais! Desculpa! hehe

    Grande abraço

  • Fernanda

    Acho que depois do comentário do Rodrigo, nada mais é preciso ser dito, mas eu sou chata e vou dizer mesmo assim.

    Esporte é muito mais que medalha!

    Esporte tem que ser encarado como prazer e qualidade de vida. Se o incentivo ao esporte começa na educação de base, certamente grandes talentos poderiam ser “pescados”. Já que a pesquisa mostra que a cada 2.000 crianças apenas 1 sai com genética para competição. E sejamos realistas, esporte de competição e rendimento é para poucos, para muito poucos.

    O problema está no milagre que o brasileiro sempre espera que mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Nos próximos 4 anos as pessoas estarão concentradas no futebol e na (me desculpem o termo) merda do Brasil ser penta. Grande coisa, os jogadores de futebol ganham fortunas e continuam com suas vidas tranquilas na Europa, enquanto 80% da população vive quase que na miséria em terras tupiniquins. Sei que um posicionamento um tanto radical, mas se pararem para pensar,m vão enxergar isso também.

    Investir na educação física enquanto prazer para os que geneticamente tem inclinação e biotipo para esporte de rendimento apareçam. Não é um milagre de 4 anos, é uma vida inteira de esforço e investimento (avisem ao Lula). Educação esportiva começa na educação de base, recebe investimentos nos jogos escolares e apoio irrestrito nas universidades.. É essa a receita milagrosa das potências olímpicas. Salvo os países comunistas, China e Cuba, é claro. Enfim, enquanto o futebol for reverenciado mesmo enquanto capenga, e esporte não for tido como profissão e tratado com responsabilidade pelos homens do poder, sejam os oficiais ou não, não adianta chorar, e sim aplaudir a garra dos atletas que fazem esforços sobrehumanos para conseguirem vencer suas próprias dificuldades financeiras.

    Só mais uma coisa, nas paraolímpiadas, onde o Brasil tem nadadores respeitadíssimos no exterior, o investimento cai drasticamente em comparação às Olímpiadas. Sem contar que o interesse das emissoras e dos colegas jornalistas é quase nulo. Isso sim é vergonhoso e, não, o judoca chorando e pedindo desculpas porque seu país nao respeita seus atletas.

    Era isso, tava entalado!

    E respondendo a pergunta do Gui, não os atletas não têm nem um milésimo de culpa, aliás eles só têm louros a carregar!

  • Marcello

    Realmente é um pergunta muito dificil. Acho que os atletas não tem culpa nenhuma, pois sofrem para chegar lá e ainda acho que a mídia tem uma certa dose de culpa nisso também. Todo atleta olimpico sonha em conseguir patrocinio para disputar uma prova ou competição. ai quando ele arruma, ao conceder uma entrevista as câmeras só mostram o rosto do atleta, não cedendo segundos preciosos com a imagem do patrocinador.
    É muito complicado. e acho que esta pressão e falta de estrutura reflete dentro das competições. Pois para mim, a Jade só chora o tempo todo e sempre cai no momento que não pode pois só ela sabe o ro~jão que tem que segurar. Além da falta de incentivo tem de se virar do jeito que dá e ir representar o país como salvadora da patria. Dificil né.
    Muito bom gui, parabéns!
    Abraços

  • James

    Psicológicamente creio que há o que ser trabalho nos atletas brasileiros…mas o fato de estar numa “olímpiada” e ter a obrigacao de não errar é um fardo enorme para os atletas brasileiros que ,bem da verdade, sentem mais….

    Quanto ao apoio do governo e federaçòes, associacoes e etc….antigamente tinhamos o problema do governo não mandar dinheiro…agora o discurso é que o governo até manda..mas grande parte dele fica retido nos cofres do COB entre outras associacoes para financiar viagens dos dirigentes…algo muito comum no futebol..onde nos anos 80 e 90 muitos dirigentes aproveitavam das trasnferencias de jogadores para lucrar um pouquinho….

    Se o repasse para os estados e munícipios já gera dúvidas, o que pensar de entidade esportivas?
    As associacoes não estão nem aiii…..
    E enquanto não houver fiscalizacao da sociedade, teremos que ficar satisfeitos com um ou outro ouro que venha……infelizmente..

Você está otimista ou pessimista com a atual situação econômico do mundo?