POR Serg Smigg 1 ANO ATRÁS
COMPARTILHE

por Serg Smigg
entretenimento@blogdacomunicacao.com.br

O assunto deste texto certamente é, para a maioria das pessoas, relevante no aspecto pelo qual deveria ser fútil e bastante indiferente no aspecto pelo qual deveria ser altamente relevante: programas de televisão.

Estudos sérios mostram que manifestamos nossa personalidade no dia a dia a partir de atitudes geridas pelo inconsciente, bem ao largo da ideia contida na expressão “fiz sem pensar”. A roupa que escolhemos pela manhã, a maneira como dispomos as mãos enquanto conversamos, os olhares que oferecemos diante de determinadas situações, os programas de TV a que assistimos, enfim, ainda somos em realidade um objeto obscuro de pesquisas. Mas já é possível determinar certos parâmetros de comportamentos segundo análise de décadas, de séculos de história de relações do elemento humano e seu mundo exterior.

Quando aceitamos passivamente inclusão de certos conceitos em nossa vida sem apararmos a mínima aresta, estamos em verdade tornando nossa mente extremamente propícia a efeitos produzidos por mentes terceiras. Isso transforma o ser humano em replicador de ilusões. Não há necessariamente que se tornar uma espécie de eremita filosófico e rechaçar toda ideia que não a própria – isso transformaria o ser humano em destruidor de novas ideias -, mas é de grande bom tom que se respeite a si próprio e se busque dentro de si mesmo base sólida para se aceitar ideias novas.

É saudável o hábito de observar incansavelmente antes de criticar, elogiando ou condenando, seja o que for. A primeira noite do primeiro Big Brother Brasil, há dez ou onze anos, deveria servir como parâmetro para o que se veria depois: a hediondez humana levada ao extremo. Nos quarenta minutos iniciais foi possível ver a dignidade humana ser posta a crivo e, infelizmente, perder força. Já nas primeiras cenas, viram-se corpos expostos como mercadoria, carreiras desenhadas em fama a qualquer custo, palavras fúteis fundamentando ideias toscas sobre relacionamento; viram-se olhares vãos em oportunidades perdidas; a condição humana de um grupo de humanos sendo manipulada à bel-necessidade do gosto de milhares de outros humanos, este medido por uma máquina que pretende traduzi-lo em número, o da audiência. Se se usasse o bom senso, nunca mais se conseguiria ver mais nada referente ao programa.

O novo reality show da Globo, Hipertensão – Crédito: Reprodução de TV

O primeiro dia do autodivulgado show de ação e aventura que pretendia ser o Hipertensão, da emissora de TV Globo, foi algo parecido com o que Dante gostaria de imaginar para A Divina Comédia, mas sua inspiração não chegara a tanto. Pessoas com sonhos simples, com sentido de vida simples, buscando ferramentas complexas para se autodisporem em evidência. Novamente, corpos desnecessariamente expostos em movimentos em demasia calculados para aparecer na edição seguinte da revista para adultos, masculina ou feminina; fundamentos vitais do elemento humano sendo imbecilizados pela força da lente da câmara da emissora; a questão crucial dos relacionamentos humanos relegada ao calculismo dos que apenas veem a si próprios e ouvem as próprias palavras apenas; vaidade excessiva travestida de autoestima; oportunismo selvagem mostrado como competitividade.

A cabeça humana é surpreendente. A mesma mente que cria crônicas fantásticas, como as de Pedro Bial, saúda a degradação da civilização atual – via BBB – como passo rumo à evolução; a mesma boca – Glenda Kozlowski – que discute o esporte como instrumento de superação acompanha – vibra, mesmo – com cenas em que jovens ávidos por evidência ingerem poção feita de óleo, fígado cru e vermes ou enfiam o rosto num recipiente com baratas para apanhar com a boca um objeto qualquer e assim receberem o título de vencedores. Ou de heróis, segundo os critérios de Bial.

Provavelmente, Voltaire anteviu a inapetência do orgulho positivo da sociedade do séc. XXI ao dizer “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”. Este texto não faz apologia à censura, não propõe discussão sobre ser ou não viável que o que se vê na TV, se ouve no rádio, se acessa na internet seja antes passado pelo poder de autoridades. Longe disso. Este texto se coadunaria com Voltaire caso ele vivesse hoje e dissesse “não concordo com o que transmites em tua emissora, mas defendo até a morte o direito de o transmitires. Entretanto, dá-me também o direito de rechaçar o que idealizas com isso, se assim eu julgar conveniente”.

De outra forma, somos o que exprimimos no dia a dia. Rejubilar-se com casas reformadas e doadas a famílias nos programas de domingo não anula a mórbida curiosidade pelas desgraças dessa mesma família, antes exploradas ao máximo no mesmo programa; é estranho ver sessões de orações em prol dos desvalidos na mesma emissora na qual se veem incríveis vídeos de alcoólatras tentando subir uma rua íngreme sob gargalhadas de outros humanos; é surreal observar programas de discussão sobre pedofilia no mesmo canal em que se veem meninas sem curvas rebolando diante das câmeras e de júris que as aprovarão ou não em suas tentativas serem ridículas, sob aplauso e sorriso das mães.

Mas há bons programas nessas emissoras”, dizem críticos cegos. Ora… sim, realmente há. E se são capazes disso, que se enalteçam os pontos bons para que se evitem os ruins. “Mas esses programas dão emprego para muita gente”, dizem os críticos hipócritas. Sim, dão. Traficantes de drogas e políticos corruptos também dão. “Mas os produtores de programas como esses buscam apenas alegrar a vida do brasileiro”, dizem os críticos ingênuos. Sim, a cocaína também pode produzir o mesmo efeito nos usuários: ilusão de alegria e prazer.

Por milênios, a natureza vem construindo a mente humana pacientemente. Tira um neurônio daqui, coloca outro lá, adapta um DNA acolá, reforça defesas ali, melhora um sistema antes inapto. Mas alguns humanos, parece, não dão conta da importância de reconhecer esse esforço. Certamente, perderão o bonde da evolução e serão engolidos por novas ordens conceituais e, no futuro, serão enumerados por cientistas como raças que foram dizimadas por algum fenômeno desconhecido.

TAGS: , , , , , ,

22
COMENTÁRIOS
MAIS SOBRE Serg Smigg
Serg Smigg, é colunista e revisor do Blog da Comunicação.
CONFIRA TODOS OS POSTS DO AUTOR
  • http:kitmell.blogspot.com valeria

    ahhh, graças a Deus não me perco nestes movimentos. Aliás, nem é movimento. Não se cria nada com isto.

    òtimo texto. Alias, estou realmente, encantada!

  • Henrique Torres

    Bom texto. Faz lembrar um filme do Truffaut chamado “Fahrenheit 451″.

    O que é degradante nesta condição, é que as pessoas pensam que seu gosto simplesmente é livre para gostarem de qualquer coisa. Não são capazes de notar que existem mecanismos que fazem com que gostem do que gostam. Não são livres nem para gostar de algo. E disso não se libertam. São mentalmente escravas, de reality shows, de novelas, de programas de auditório, de livros best-sellers, de filmes em 3d com muitos efeitos especias, e mil outras coisas do gênero.

    Não é preciso extrema originalidade para rejeitar tudo isso. É preciso apenas se dar conta de que se é induzido à algo. É desta indução que a humanidade em geral deveria se livrar. Indução gerada pelo interesse em ganhos elevados de dinheiro.

    • Serg Smigg

      Meu caro,
      grato pelo comentário postado sobre meu texto.
      Há alguns anos, em minhas palestras, tenho manifestado preocupação com a maneira cega pela qual as pessoas se entregam a “aventuras psicológicas”, com intenção (parece-me) de suprir necessidades sobre as quais não têm poder, posto que (também me parece) nem sequer sabem que têm tais necessidades.
      É assim com programas de TV, com a moda, com vícios, com religião… com o consumo em geral.
      Estou quase criando uma ONG para descobrir meios de mostrar o perigo social que isso representa, já que esse compotarmento interfere diretamente na evolução da sociedade.
      Estaria eu divagando excessivamenet?
      Um abraço1

  • Mel Frias

    Finalmente um texto que fale da banalização da exposição do corpo e da mente de seres humanos na televisão.
    Relatou com todas as grandezas e miudezas o que acontece nestes programas.

    Adorei!

  • José Ramalho

    Glenda, como vc se sente com tamanha selvageria, desrepeito e barbarismo? Vc faz isso por dinheiro e fama, e deixa de lado a humanidade, ética, respeito. Não se sente mal? Sua imagem de crebibilidade acabou. Não há justificativas, não há racionalizações. É, as pessoas fazem tudo por dinheiro e fama.

    • Glenda

      Me sinto mais rica que você!

  • http://www.blogdacomunicacao.com.br/27-anos-de-100-de-vida-corinthians-minha-vida-minha-historia-e-meu-amor/ Guilherme Freitas

    Concordo com seu texto Serg. Hipertensão, BBB, A Fazenda, e outros são todos uma porcaria. Não tem conteúdo algum, são vazios e toscos. Os participantes são simples amebas que parecem não ter nada na cabeça. Infelizmente a grande massa embarca nesses programas e dá a emissora o que ela quer: audiência. Sem dúvida é um grande desperdício usar Pedro Bial e Glenda Kozlowski, jornalistas brilhantes, para apresentar essa furada.

  • http://deltadoisx.wordpress.com/ Felipe

    Excelente texto, fico feliz de ver que ha mais pessoas que pensam e expressam uma visão tão crítica e aprofundada do que é consumido pela sociedade pós – moderna.
    só uma curiosidade, acho que o programa hipertensão deveria ter o subtitulo: quando a cabeça não pensa o corpo padece.

    • Serg Smigg

      Caro Felipe.

      Grande ideia, a sua. O subtítulo estaria perfeito para o programa.

      Um abraço.

  • Ricardo

    Muito bom esse texto. Infelizmente isso é o que há na tv aberta. buscam audiencia($$$) a qualquer preço e o povão gosta.

    deprimente… mas fazer o que, né?

    parabéns pelo texto serg smigg

  • http://naotenho.com AdoroComentar

    ATÉ QUE ENFIM!!!! PESSOAS QUE PENSAM COMO EU!
    a dois dias atrás eu comentei isso com meus pais… eles me xingaram e perguntaram: é.. vc teria coragem de fazer essas coisas..
    MÉ DEU ATÉ PENA DELES.. AQUELAS MULHERES DE BIQUÍNI, OS HOMENS DE SUNGA. A EMISSORA ULTILIZANDO A IMAGEM DE OUTROS PARA FAVORECE-LÁ. E OUTRA COISA, O PRÊMIO É UMA MISÉRIA EM RELAÇÃO AO QUE ELES GANHAM COM A APRESENTAÇÃO DESSES REALITYS..

    PREFIRO JACKASS !

  • MarcusLyra

    Décadence sans elegance.

    A arte da necessidade de aplausos. Partida da certeza de observação.

  • Natália christofari Ornelas

    Excelente post. Estamos vivendo uma sociedade sem valores. Precisamos de pessoas criticas e que, escrevem sobre esta banalização do ser humano. Parabéns!

  • Tetek’_Loks

    Achei esse programa HORRÍVEL … fala sério ;/ ratos,baratas,cobras e aranhas sendo jogados numa pessoa Que Nojo!!

  • Fernando

    Concordo que reality shows, todos os tipos em quaqluer formato, são chatos, ruins pra c** e imbecilizam quem gosta de assistí-los.
    No entanto, isso é apenas entretenimento. Não é feito pra ser levado a sério, apesar de muitos o levarem a sério. Esses programas não são nada além do que o público quer ver. Infelizmente. Emissoras de TV não são instituições de caridade nem ONGs, também não tem obrigação nenhuma de educar ou criar nossos filhos. Somos capitalistas, todos nós, e também as emissoras. O objetivo é um só: fazer dinheiro. Logo, o caminho é produzir toda sorte de lixo que se traduza em patrocínio e venda de horário em troca de audiência, visibilidade. Assim, diante de tanta porcaria, alguns simplesmente mudam de canal, outros desligam a TV, outros tantos se revoltam (como você), e muitos assistem assiduamente. Não julgo os povos de onde esses programas vieram, mas é certo que faz parte da nossa cultura observar e comentar a vida alheia. Para alguns, isso é a razão da vida. Existem programas de TV que falam apenas da vida privada de “celebridades”, e inúmeras revistas que fazem o mesmo. No entanto, a sede de informações inúteis é tanta, a voracidade por problemas alheios é tão grande, que programas televisivos que transformam desconhecidos desinteressantes em “celebridades” ganham força.
    Na minha opinião, é apenas isso. E pior que isso, é um caminho sem volta….

    • Serg Smigg

      Caro Fernando,
      grato pela participação e comentário.
      Você tem razão ao dizer que “aquilo” é apenas entretenimento. Contudo, é termômetro para as sociedades que assistem a esse tipo de programa. Os arqueólogos de hoje definem as características das civilizações antigas a partir de hábitos e costumes destas.
      A simples existência de programas como esse, assim como o consumo de determinados tipos produtos, desenham a sociedade que somos, a sociedade da qual fazemos parte. Sinto-me pequeno quando vejo as plaquinhas de “Atendimento Preferencial” em locais públicos. Afinal, ao ser necessária a existência de tais placas, significa que a socidade em volta dela precisa ser lembrada que alguns seres humanos têm necessidades especiais, temporárias ou não.
      Saber que há programas como esse no mundo é indignificante para o animal humano. Reconheço que é possível simplesmente acionar o controle e mudar de de canal ou fechar os olhos diante daquelas plaquinhas – apesar de isto significar que aquilo não nos atinge, que somos alheios àquilo. Ainda assim, tanto plaquinha como programa estarão lá, mostrando o quanto somos depententes de imagens e altamente manipuláveis.
      Se os poucos humanos no mundo que ainda pensam, criticam, observam e questionam não expuserem sua repugnância – e simplesmente mudarem de canal – certamente permaneceremos aceitando políticos imbecis, traficantes ignóbeis, autoridades corruptas, banalização da condição humana.
      Afinal, basta que mudemos de canal ou que tapemos os ouvidos.

  • Fernando

    Esqueci de dizer: gostei muito do seu texto.
    Abraços!

  • Vitor

    Eu DUVIDO que eles estejam la pra aparecer ¬¬
    Ta, talvez alguns. Mas o que a maioria quer é o prêmio, que acho que é de um milhão de reais ou meio milhão não sei.
    Em todo caso, eu também não gostei do programa.. Gostava mais do No Limite das antigas (ou o atual The Survivor, que ainda é legalzinho).

  • junior

    Cara que coisa mais chata ficar falando que esses programas são ruins e tals, se não gosta não assistE.PRONTO..hÓ vo te ensinar tem o controle remoto da televisão tem o botão de mudar o CANAL, então tu aperta e ele muda de canal SIMPLES POR…, HÁ e tem outra coisa tu é desse planeta?, bbb um programa mundialmente conhecido e de sucesso vo repeti SUCESSOOOO!!!< todo mundo assiste ou assistiu ou vai assisti sei lá tu goste ou não, aposto que até tu assistiu e adorou….!!! só isso já dá pra voce e entender né?!

    • Filipe Gerhardt Weiss

      O jovem autor do comentário acima não está familiarizado com o conceito concretizado na cabeça de qualquer pessoa levemente detentora de um mínimo de cultura de que a maioria absoluta dos “sucessos internacionais” nada mais são do que material criado para render dividendos sem pensar nas consequências que traz para o rebanho hipnotizado. O rapaz sequer entender como alguém pode não gostar de seu programa querido, chegando a duvidar da opinião que o autor expressa e que é compartilhada pela maioria de nós.
      Ademais, realmente me impressionou quando eu liguei a televisão e vi que as participantes apareciam cobrindo as mamas em uma forma desnecessária de banalização de sua imagem. Se o objetivo é mostrar o corpo, há lugares específicos em que a mulher pode degradar-se a uma condição além do que seus pensamentos mais sombrios podem idealizar.
      Por fim, tentarei, posteriormente, provar a você que as crônicas tão interessantes, do Pedro Bial, que você leu não passam de repetecos de crônicas da literatura americana, em algo que parece um hábito por parte do apresentador (lembra do filtro solar?).
      E, sim, eles estão lá por algo além do prêmio. A maioria tem ciência de que não vai conseguir vencer, mas a certeza de que alguma auto-promoção vai acontecer é evidente na cabeça de qualquer um dos participantes.

    • Serg Smigg

      Olá, senhor Júnior.
      Por favos, leia a reposta (acima) que dei ao senhor Fernando que, aliás, expos opinião semelhante a sua, mas de maneira muito mais civilizada.
      Preciso dizer que a forma “irracional” como você manifestou sua opinião aqui é típica de pessoas que “adoram aquele programa”. Você não percebe, mas já foi contaminado pelo comportamento irrascível encontrado naquele tipo de programa. Então, até notar que o que você faz e pensa estimula o fazer e pensar das pessoas a sua volta, vai vivendo sua vida alienada, mas manipulada. Assim, respondendo a sua pergunta, o mundo em que vivo certamente não é o seu.
      De qualquer maneira, estou à disposição para continuar essa discussão sem envolver os outros leitores. Escreva: sergsmigg@yahoo.com.br

  • http://ana21223@hotmail.com ana

    Adorei teu texto.
    Acho que aquela resposta que diz ser da Glenda não é dela.
    Não pode uma pessoa tão conceituada na Globo dar esse tipo de resposta.Quem o fez foi infeliz.
    Só ainda gostaria de complementar e dizer o quanto a Globo está falhando com esses tipos de programas, péssimos e de mau gosto.Me admiro ainda que repórteres tipo a Glenda aceitem realizar um trabalho desses.
    Acho que a Globo deveria resolver seus probleminhas e mostrar a realidade das coisas,tipo porque não mostrar o episódio em que o filho do Sirotski está envolvido.
    A Ana Maria Braga começou a dar uma de repórter policial e trocar seus assuntos do programa por entrevistas com mães e pais ainda doloridos com mortes dos filhos,chorando e se lamentando pelos episódios ocorridos.Porque ela não troxe a mãe da menina de Floripa que foi estuprada pelos tres meninos em que um deles é filho do Sirotski,porque não contou como foi o negócio todo.Só porque é da globo.Grande merda.Fico indignada com coisas assim.

Você está otimista ou pessimista com a atual situação econômico do mundo?
  • Ops! Há algo de errado com o Twitter...