por Ivone Soares*
Colaboração ao Blog da Comunicação
Este Mundial de futebol chama a atenção do mundo inteiro para o continente africano. E põe particularmente em foco a África do Sul e toda a região Austral do continente, onde Moçambique se insere geografica, política e economicamente. Pela primeira vez, os africanos vão ser anfitriões de um evento desportivo de primeira grandeza que vai pôr à prova a sua capacidade organizativa em múltiplos aspectos. E isso será uma oportunidade única para mostrarmos do que somos capazes, já que a África do Sul será a face visível dos africanos em busca de um reconhecimento internacional de que necessitamos para fundamentar o nosso orgulho próprio.
Apesar de tudo e diferentemente da minha expectativa inicial, não estou a sentir um grande entusiasmo pelo evento. Isso deve-se, em parte, ao facto de eu não ter particular interesse pelo futebol, enquanto espectadora. Com raras excepções, me dou ao cuidado de assistir um jogo pela televisão. Dou mais valor à modalidade se assistir ao vivo ao desenrolar de uma partida. O espectáculo das multidões, as reacções de agrado e desagrado em uníssono dos espectadores é um fenómeno social que me fascina. Talvez porque aí reconheça a energia das massas que encontro nos comícios políticos em que me reconheço, embora na política eu encontre qualidades redentoras que não vislumbro nos estádios cheios de multidões alienadas e ululantes.
Inicialmente, a ideia da realização de um campeonato de futebol ao nível mundial, na vizinha África do Sul, animou-me o espírito, porque a ideia em si acrescenta uma nova dimensão à nossa imagem de africanos por esse mundo fora, onde somos geralmente vistos por um prisma negativo e miserabilista. As imagens que geralmente oferecem de nós ao mundo é a das grandes tragédias: das cheias, da fome, da guerra, dos regimes ditatoriais e corruptos. Desta feita, aqui está uma oportunidade de mostrar o que valemos, ainda que numa comparação necessariamente desigual com os países do chamado primeiro mundo. A África do Sul é uma potência africana, não é os Estados Unidos e isso nota-se. Desde o início, aquando das construções dos estádios, foram as greves dos trabalhadores, foram os “apagões” súbitos deixando cidades à escuras.
As “nossas insuficiências”, como certos partidos marxistas africanos usavam dizer durante o monopartidarismo, estão à vista. Neste caso, a dos sul-africanos do ANC, que gastam mais energia eléctrica do que produzem e que não programaram atempedamente o seu futuro energético e estão agora a braços com uma crise que levará uma década para resolver. Daí que persista o fantasma de novos “apagões” durante este Mundial ou, em alternativa, iremos nós, os moçambicanos, ver reduzida a nossa quota de energia fornecida por Cabora Bassa, mas que nos chega ao Sul do país através do sistema de distribuição sul-africano.
É assim que uma boa ideia começa a parecer menos boa, à medida que se acumulam erros de execução. Depois a excessiva expectativa de que o Mundial aqui ao pé da porta iria ser um maná para o sector turístico foi tiro que saiu pela culatra. A miragem de que a procura seria maior que a oferta feita pelas unidades hoteleiras sul-africanas alimentou a esperança que muitos turistas se instalassem na zona de Maputo e que se deslocassem ao país vizinho só para assistir aos jogos. Infelizmente, circunstâncias várias conjugaram-se para que as projecções iniciais não se concretizassem.
Se me permitem, a lesão de última hora de Didier Drogba (a estrela africana do britânico Chelsea) serve aqui de metáfora para as insuficièncias do continente. Drogba, que era o “motor” e a “reserva estratégica” da selecção do seu país, a Costa do Marfim, vê comprometida a sua participação o Mundial. Ainda assim, os costa-marfinenses insistem que o avançado vai jogar, mesmo de braço ao peito. Assim, somos, por vezes, nós africanos: sonhadores de sonhos improváveis, mas estóicos e imunes às dores inevitáveis da nossa existência.
Não obstante todas os percalços, estou em crer que os astros se irão alinhar por forma a que o Mundial seja aquilo que os africanos mais desejam, ou seja: uma festa, um momento único de encontro de representantes de todo o mundo no continente que viu nascer a Humanidade.
* Ivone Soares é moçambicana, jornalista e deputada pelo partido Renamo. Também mantém dois blogs: o Meu Ser Original e Rabiscos da Soares. Escreveu este artigo a convite dos editores do Blog da Comunicação.
O texto está escrito com as grafias do português de Moçambique.
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